O ‘Prosa com Elas’, iniciativa do Sebrae Bahia em parceria com o Corecon-BA, reuniu na tarde desta terça-feira (18) empreendedoras, pesquisadoras e lideranças para discutir os desafios das mulheres negras no empreendedorismo. O encontro foi realizado na sede do Sebrae, no bairro do Costa Azul, em Salvador.
Em um contexto marcado por discriminação racial, silenciamento e invisibilidade, os relatos das palestrantes reforçaram a potência de um segmento que cresce, mas ainda enfrenta desigualdades profundas.
A gerente adjunta da Unidade de Gestão Estratégica do Sebrae Bahia e presidente do Corecon-BA, Isabel Ribeiro, destacou que, no Brasil, são 10,4 milhões de mulheres empreendedoras, sendo que o número total de empreendedores negros aumentou 22,1% nos últimos 10 anos. Entre as mulheres, 39% são chefes de família, realidade que amplia a responsabilidade financeira e emocional sobre seus negócios.

A publicitária Mirtes Santa Rosa, especialista em comunicação e inovação estratégica e sócia do portal Umbu, abriu sua fala destacando a experiência de ser a primeira da família a ingressar no ensino superior. “Descobri que ser publicitária negra era muito difícil”, afirmou. A partir desse enfrentamento, Mirtes desenvolveu um entendimento profundo sobre finanças, propósito e impacto comunitário, sem perder de vista a sustentabilidade do negócio.
“Percebi a importância de entender sobre dinheiro. Eu queria abrir uma empresa de comunicação e cultura. E nós, afroempreendedores, pensamos no coletivo e na comunidade quando empreendemos. Isso é também estimular o outro”.
Ela ressaltou que o Umbu nasceu desse compromisso. “Estamos construindo e dizendo que ninguém vai nos desacelerar. Quero ser respeitada como empresária. Digo a vocês que podemos fazer o que quisermos, principalmente buscando qualificação”. O portal, segundo ela, se firma como um jornalismo online independente, democrático e antirracista, focado em narrativas negras, periféricas e populares.

Educação afro-brasileira
A professora Bárbara Carine, conhecida nas redes sociais como “intelectual diferentona”, levou ao ‘Prosa com Elas’ o relato sobre a criação da Escola Afro-brasileira Maria Felipa, instituição pioneira no país. “Idealizei a Escola Afro-brasileira Maria Felipa. Não existe outra escola afro-brasileira registrada no MEC no Brasil”, destacou.
Fundada em 2017, a escola nasceu como um projeto político-pedagógico inovador. A instituição tem como missão “contribuir com a formação humana por meio de um complexo social escolar, lutando contra toda forma de opressão e desvalorização social e promovendo respeito e equidade racial, religiosa, de gênero, de classe e às pessoas com deficiência”.
A chegada da sócia Maju Passos fortaleceu o projeto, mas os desafios se intensificaram com a pandemia de 2020, que “derrubou” financeiramente a escola. A reconstrução incluiu a criação de novas fontes de receita. “Criamos mecanismos para ganhar dinheiro além das mensalidades, com prestação de serviços, ações educacionais e consultorias em relações étnico-raciais”.
O trabalho pedagógico e a proposta antirracista da escola ganharam visibilidade nacional. Bábara conta que conseguiu se conectar com a atriz Leandra Leal, ao participar de uma aceleração no Rio de Janeiro. Assim, em sociedade com Leal e também com Maju Passos, Bárbara levou a escola para a capital fluminense.
Bárbara contou que o empreendimento começou como um gesto de coragem e maternidade. “Eu abri a escola como uma mãe educadora. Não fiz estudo de plano de negócios. Criei com um sonho e acreditando em um grau de coletividade nesse sonho, mas tive que acreditar que o sonho era meu”, afirmou.
Ela reconhece que inicialmente não compreendia o funcionamento financeiro do negócio.
“Ter valor não significa que vai ser transformado em preço. Eu não entendia como um negócio, mas hoje compreendo a importância dessa visão”, disse.
Após relatar sua trajetória empreendedora, Bárbara Carine encerrou com uma síntese de resistência e futuro. “Queremos e merecemos nos emancipar”, concluiu.
Pesquisa
Durante o evento, foi apresentada a 3ª edição da pesquisa Propósito dos Afroemprendedores Baianos, que mostrou o que empresárias e empresários negros estão em busca quando decidem emplacar o próprio negócio

