O mercado de cacau tem sido desafiador para produtores e produtoras do fruto na Bahia e no Pará – estados que acumulam maior produção da commodity no Brasil. De acordo com dados mais recentes do IBGE, em 2024 a Bahia produziu 137.028 toneladas de cacau distribuídas em 428.997 hectares de área colhida. Mas, mesmo com a produção pujante o setor enfrenta uma crise em 2026 que se acirra com a importação das amêndoas para a indústria brasileira.
O Brasil é o sexto maior produtor de cacau no mundo. Na cadeia global, Costa do Marfim e Gana concentram maior parte da produção de amêndoas de cacau, somando 70% do quantitativo – segundo a Bolsa de Nova York (NYSE). A crise vigente do escoamento de cacau tem implicações do global ao local, em que países produtores do fruto têm ocupado o mercado brasileiro enviando amêndoas com alta competitividade no que tange ao custo-benefício.
Segundo o diretor do Consórcio Cabruca de exportação de chocolates finos do Sul da Bahia, Thiago Fernandes, a crise foi pré-anunciada. “Tivemos nos últimos três anos produtores de cacau na Bahia recebendo mais de R$ 1 mil por arroba, representando um aumento significativo em comparação a outros países que atravessavam a crise climática. Com a retomada da crescente produção global de amêndoas, a conjuntura é outra e nos desafia a se reinventar”, avalia.
Para o especialista, não só o movimento de retomada da produção global do cacau impacta no contexto local, mas também a redução do percentual de cacau em pó na produção de chocolates da indústria brasileira – fator que pode ser revertido com o Projeto de Lei (PL) 1769/2019 que prevê o uso de pelo menos 35% de sólidos totais de cacau na composição de chocolates, sendo que o chocolate ao leite precisará conter ao menos 25% de cacau e 14% de sólidos totais de leite. O PL foi aprovado na Câmara dos Deputados e no Senado.
Oficinas do Sebrae
Para contribuir a superar esse cenário desafiador, o Sebrae realiza o circuito de oficinas “Do fruto ao aroma: produção de cacau fino”, iniciativa em parceria com a Ecoagro – Cocoa Hub que prevê capacitações teórico-práticas voltadas para produtores elevarem a qualidade das amêndoas de cacau e acessarem mercados mais valorizados. O primeiro encontro foi realizado nesta quarta-feira (15), em Presidente Tancredo Neves, no Baixo Sul Baiano. O próximo encontro será em Valença, dia 6 de maio. As inscrições são gratuitas e podem ser feitas pelo telefone/WhatsApp: 75 98151 5743. Os encontros formativos seguirão até junho.
“O circuito se apresenta não apenas como uma ação de capacitação, mas como uma estratégia estruturante para o reposicionamento da cacauicultura regional, contribuindo para o aumento da renda dos produtores e para o fortalecimento de um modelo produtivo mais sustentável e competitivo”, avalia o analista do Sebrae em Santo Antônio de Jesus, Luanildo Silva.
Realizadas em ambiente de campo, as oficinas conduzirão os participantes por todas as etapas do processo produtivo – da colheita à análise sensorial – evidenciando como cada decisão impacta diretamente o aroma, o sabor e o valor comercial do cacau. Integrando conhecimento técnico e vivências, a proposta do circuito é fazer com que o público participante compreenda o encadeamento entre manejo, pós-colheita, qualidade e mercado, fortalecendo a produção de cacau fino como estratégia de agregação de valor e aumento de renda.
Produtores e produtoras rurais de Presidente Tancredo Neves, Wenceslau Guimarães, Teolândia, Gandu, Piraí do Norte, Valença, Ituberá, Igrapiúna, Camamu, Mutuípe, Ubaíra e Jiquiriçá podem participar da iniciativa. A realização do circuito nesses municípios amplia o alcance da ação e fortalece uma abordagem territorial, promovendo a disseminação de boas práticas e a construção de uma base produtiva mais qualificada e resiliente, como explica o analista do Sebrae.
Sistema Cabruca
De acordo com a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), a marca registrada da cacauicultura baiana é o cacau-cabruca, sistema agroflorestal, único no mundo, caracterizado pelo cultivo de cacau sob o dossel de árvores da Mata Atlântica, às margens de rios, vales e montanhas, onde o cacaueiro se desenvolve em solos profundos e bem drenados. O agroecossistema contribui para a conservação do bioma Mata Atlântica, sua fauna e flora. Além disso, a cabruca, quando bem manejada, mantém o microclima local para os cacaueiros, o que possibilita bons índices de produtividade. Esse sistema representa cerca de 60% da área de cacau da Bahia.

